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Opinião

Editorial: Pátria Submissa põe as terras raras no 2º turno e esquece quem vendeu a mina de Goiás

O vídeo de Wagner Moura acusa um complô para entregar as terras raras aos EUA. A única mina comercial do país em larga escala, em Minaçu, já foi vendida a uma empresa americana em setembro, neste governo, com a AGU contra suspender o negócio.

Por Editorial F5 ao vivo
Wagner Moura, apresentador do episódio Pátria Submissa, no Festival de Cannes de 2025
Wagner Moura, apresentador do episódio Pátria Submissa, no Festival de Cannes de 2025 Foto: Harald Krichel (CC BY-SA 4.0)

O ator Wagner Moura apresenta o sexto episódio da série Revelando, chamado Pátria Submissa, publicado nesta sexta-feira (16). São 28 minutos sobre um suposto plano para entregar aos Estados Unidos as terras raras brasileiras, minerais usados em carros elétricos, turbinas eólicas, chips e equipamentos militares. A série é feita pela equipe do podcast Calma Urgente, com apoio do ICL, da Mídia Ninja, do 342 Artes e do Intercept Brasil.

O vídeo junta falas de Donald Trump, Flávio Bolsonaro (PL) e Eduardo Bolsonaro, cita o empresário André Marinho e uma rede de doadores americanos ligada ao vice-presidente J.D. Vance, e traz trechos de entrevista do general Santos Cruz, ex-ministro de Jair Bolsonaro, que critica a submissão voluntária a outro país. Moura fala em complô e diz que os citados conspiram contra o Brasil.

O que é fato

O Brasil tem uma das maiores reservas de terras raras do mundo. Pelo Serviço Geológico dos EUA, são cerca de 21 milhões de toneladas, atrás só da China. O interesse americano também é fato: Washington quer depender menos de Pequim nesses minerais.

A fala citada também existe. Em 28 de março, na conferência conservadora CPAC, nos EUA, Flávio disse que o Brasil é a solução para os americanos quebrarem a dependência da China em minerais críticos. Na época o governo reagiu forte e o ministro Rui Costa disse que a proposta era entregar riquezas a outro país.

André Marinho confirmou ter escrito uma proposta de parceria em minerais com o nome de Flávio na capa, segundo a Tribuna do Planalto, mas negou que fosse material de campanha ou que tenha sido mostrada a autoridades americanas. Até a publicação deste texto não havia resposta pública da campanha de Flávio ao episódio.

O que o vídeo deixa de lado

A única operação comercial de terras raras em larga escala no Brasil, a mina Pela Ema, da Serra Verde, em Minaçu (GO), já tem dono americano. A USA Rare Earth anunciou a compra em abril e concluiu o negócio em 4 de setembro, por cerca de US$ 2,8 bilhões. O Departamento de Guerra dos EUA pôs US$ 750 milhões numa empresa criada para comprar a produção da mina.

Quando a Rede foi ao STF pedir a suspensão da troca de controle, a Advocacia-Geral da União, que defende o governo federal, recomendou negar o pedido. Doze dias depois da conclusão da venda, em 16 de setembro, Lula sancionou sem vetos a Lei 15.506, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

Análise F5 ao vivo

Soberania sobre o subsolo é assunto sério e está na Constituição: o art. 20, IX, diz que os recursos minerais pertencem à União, e o art. 176 manda que a lavra só aconteça com autorização federal e no interesse nacional. Um país com a segunda maior reserva do planeta deveria discutir isso com números, contratos e regras claras, não com trilha de suspense.

O problema do Pátria Submissa é escolher a parte do fato que serve à tese. Um discurso numa conferência vira prova de complô, enquanto a venda real da mina mais importante do país, fechada em setembro com dinheiro do governo americano e com a AGU contra suspender o negócio, aparece como pano de fundo. Quem fala em entrega precisa explicar por que a entrega que de fato aconteceu passou sem barulho em Brasília.

O eleitor merece as duas metades. Quem promete parceria com os EUA tem de dizer como o minério vai gerar indústria e emprego aqui dentro, e não só caminhão de carbonato saindo de Minaçu. E quem governa hoje tem de explicar por que a nova lei chegou depois da venda. Artista tem todo o direito de opinar; o que não dá é chamar opinião de revelação.

Fontes: Poder360: Wagner Moura e o episódio Pátria Submissa, Tribuna do Planalto: Revelando cita mina de Goiás, CNN Brasil: fala de Flávio na CPAC, Poder360: USA Rare Earth conclui compra da Serra Verde, Agência iNfra: AGU defende manter troca de controle da Serra Verde, Agência Câmara: nova lei de minerais críticos, USGS: terras raras (Mineral Commodity Summaries). Texto escrito pela redação com as próprias palavras, a partir das fontes citadas.

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