Três versões, um ChatGPT e um 'não gostei': a carta que isolou Flávio
Flávio tinha uma queixa séria contra o STF e a trocou por um papel com brasão antigo, título de presidente que ele não tem e PDF exportado por IA. Nesta quinta, o próprio PL disse que não aprova.

Ontem este portal escreveu que o ministro Alexandre de Moraes entregou a Flávio Bolsonaro o enredo do exílio. Vinte e quatro horas depois, o problema é outro: o senador recebeu um enredo forte e o estragou com uma carta feita às pressas, corrigida duas vezes em uma hora e agora rejeitada pelo próprio partido.
As três cartas de quarta-feira
- 16h43: a primeira versão sai com um brasão antigo, com Brazil escrito com Z, de quando o país ainda se chamava Estados Unidos do Brasil. No texto, Flávio se apresenta como presidente eleito.
- 16h56: o brasão é trocado pelo da República Federativa do Brasil, mas o título de presidente eleito fica.
- 17h41: na terceira versão, presidente eleito vira líder do Brasil.
No mesmo texto, Flávio diz que não reconhece o resultado, que saiu do país e não fugiu, e que vai liderar a oposição de fora. Também atribui a vitória de Lula à extensão da votação até as 19h.
O ChatGPT no meio do caminho
A coluna de Andreza Matais, no Metrópoles, passou o PDF pela ferramenta de autenticidade de conteúdo da Adobe, e os registros do arquivo apontam o uso do ChatGPT para gerar o documento. A ferramenta não prova que a IA escreveu o texto, só que ela foi usada para exportar o arquivo.
O blogueiro Paulo Figueiredo, que distribuiu a carta à imprensa, confirmou no X que o ChatGPT ajudou a produzir as versões. Segundo ele, Eduardo Bolsonaro pediu à ferramenta que pusesse o brasão da República e ela escolheu um modelo antigo. Figueiredo chamou o resto das perguntas de fetiche da imprensa.
O PL não assina embaixo
Nesta quinta-feira (29), ao chegar à casa de Jair Bolsonaro para uma visita autorizada por Moraes, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, foi perguntado sobre a carta.
Não gostei.
Valdemar Costa Neto, presidente do PL
Ele disse ainda que nem o pai sabia da viagem do filho e que ninguém no partido foi avisado.
O Flávio passou por uma situação difícil, nós compreendemos, mas não aprovamos.
Valdemar Costa Neto, presidente do PL
Análise F5 ao vivo
A crítica ao STF continua de pé. Pedir a apreensão do passaporte de um senador sete minutos depois de o TSE declarar o resultado, num inquérito em sigilo, é medida que precisa de explicação à altura da liberdade de locomoção (art. 5º, XV) e do devido processo legal (art. 5º, LIV) da Constituição. Era essa a briga que valia a pena. Quem perde a eleição e sofre uma cautelar dura tem o dever de apontar o excesso com precisão, porque a precisão é a única arma de quem está fora do poder.
A carta fez o contrário. Chamar-se de presidente eleito depois de uma derrota por 51,79% a 48,21% não tem base em nenhum artigo da Constituição. A tese das 19h também não para de pé: segundo o Poder360, só 34.808 votos foram registrados entre 17h e 19h, enquanto a diferença final passou de 4,4 milhões. E um documento político que pretende falar em nome de um país não pode sair com o nome do país escrito errado por uma ferramenta de IA. Cada erro desses virou manchete no lugar da pergunta que importava: com que fundamento se tirou o passaporte de um senador no domingo da eleição?
O resultado é um líder isolado. O partido não aprova, o pai não sabia e a oposição que ele promete comandar de Miami tem 11 faltas no Senado contando. Oposição de verdade se faz com mandato exercido, voto em plenário e denúncia bem fundamentada dos excessos do Supremo. Carta de três versões só ajuda quem queria vê-lo desacreditado.
Fontes: Metrópoles (Andreza Matais), Poder360, Poder360: "Não gostei", diz Valdemar, Poder360: Valdemar diz que Bolsonaro não sabia da viagem. Texto escrito pela redação com as próprias palavras, a partir das fontes citadas.






