Editorial: o relógio de R$ 42 mil e o discurso do pai dos pobres
No debate da Band, Lula usou um Omega estimado em R$ 42 mil e Flávio um Casio de R$ 449. Relógio não é crime nem programa de governo, mas símbolo pesa quando o discurso é falar pelos mais pobres.

O primeiro debate direto do 2º turno, na Band, na noite de domingo (18), teve acusação, provocação e pouca proposta. No dia seguinte, um detalhe que ninguém citou no palco virou assunto nas redes: o relógio no pulso de cada um.
O que se sabe
Segundo o Poder360, o presidente Lula (PT) usava um modelo da linha Omega Constellation. O modelo mais parecido no site oficial da marca suíça, em ouro e aço, sai por 7.400 euros, cerca de R$ 42 mil. O mesmo veículo mostra fotos oficiais de 2024 em que Lula aparece com o mesmo modelo, em encontros com o então chanceler alemão Olaf Scholz e com uma executiva da montadora BYD.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) usava um Casio da linha G-Shock. O modelo mais parecido custa R$ 449 no site da Casio no Brasil. Segundo a assessoria do senador, citada pelo Terra Brasil Notícias, o relógio era de Jair Bolsonaro e foi dado ao filho em dezembro, quando a candidatura foi anunciada.
Os dois valores são estimativa a partir de modelos parecidos, e não avaliação das peças que estavam no estúdio. Não houve manifestação do Planalto sobre o assunto até a publicação deste texto.
Relógio de presidente já foi caso
Não é a primeira vez que um relógio de Lula vira notícia. Em agosto de 2024, o Tribunal de Contas da União decidiu, por maioria, que ele não precisava devolver um Cartier recebido de presente numa viagem à França em 2005, no primeiro mandato. A tese vencedora foi a de que não existe lei que diga quais presentes o presidente pode guardar. O único voto pela devolução foi do ministro Walton Alencar.
No dia seguinte, Lula disse que devolveria o relógio para a decisão não ser usada a favor de Jair Bolsonaro no caso das joias sauditas. A defesa do ex-presidente tinha avisado que levaria a tese do TCU para aquele processo.
Análise F5 ao vivo
Ninguém precisa justificar o próprio relógio. Se o Omega foi comprado com dinheiro próprio ou recebido de forma regular, é escolha pessoal e não tem nada de ilegal. O que este portal discute é outra coisa: a coerência entre o que se mostra e o que se diz. Quem passa a campanha falando em nome do trabalhador que conta moeda no fim do mês escolhe, num debate visto por milhões, um acessório que custa mais de 25 salários mínimos.
Símbolo é linguagem de campanha, e os dois lados sabem disso. O G-Shock de R$ 449 com história de herança de pai também é mensagem, cuidadosamente contada pela assessoria. A diferença é que um símbolo confirma o discurso de quem o usa e o outro trabalha contra ele. O eleitor que viu a conta de luz subir este ano percebe a distância entre o pulso e a fala.
E fica a pergunta que o caso Cartier deixou sem resposta. Desde 2024 o país sabe que falta uma lei clara sobre presentes recebidos por presidentes, e o Congresso não votou nada. Seja quem for o eleito no dia 25, essa regra deveria valer antes da posse, para que relógio no pulso de presidente volte a ser só relógio.
Fontes: Poder360: no debate, Lula usa relógio avaliado em R$ 42.000 e Flávio de R$ 449, Terra Brasil Notícias: relógio de Lula no debate e a versão da assessoria de Flávio, CNN Brasil: após decisão do TCU, Lula avalia devolver relógio que ganhou da França em 2005, Poder360: Lula diz que vai devolver relógio Cartier para não ajudar Bolsonaro, O Povo: TCU muda decisão e fixa tese sobre presentes. Texto escrito pela redação com as próprias palavras, a partir das fontes citadas.






