Em ato no Largo São Francisco, Dirceu diz que Flávio não vai abrir o sigilo
Depois do ato pela Constituição na Faculdade de Direito da USP, no centro de São Paulo, o ex-ministro de Lula afirmou que o senador pode acabar no mesmo lugar do pai se abrir os dados.

O ex-ministro José Dirceu (PT), que chefiou a Casa Civil no primeiro governo Lula, disse na noite desta quarta-feira (21) que o senador Flávio Bolsonaro (PL) não vai abrir os próprios sigilos bancário, fiscal e telefônico. A declaração foi dada ao Poder360 na saída de um ato na Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, centro de São Paulo.
"Pelos pretextos que ele tá colocando, ele não vai abrir o sigilo, nem pode abrir"
José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil
Na mesma fala, Dirceu afirmou que, se abrir os dados, o senador pode terminar no mesmo lugar em que está o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso. O Poder360 procurou a assessoria de Flávio para comentar a declaração e não teve resposta até a publicação.
O ato no Salão Nobre
O encontro foi marcado para as 18h no Salão Nobre da faculdade, com entrada aberta ao público. A organização foi da Comissão Arns, de direitos humanos, e do Centro Acadêmico XI de Agosto, que apresentaram o evento como apartidário. Os mestres de cerimônia anunciados foram o jornalista Juca Kfouri, membro da comissão, e a professora Maria Paula Dallari.
O centro do ato foi a leitura do Manifesto pela Constituição, pela Democracia e pelos Direitos Humanos. Segundo a TVT, o texto passou de 600 assinaturas, entre elas as de três ex-presidentes do STF: Celso de Mello, Rosa Weber e Cezar Peluso. O manifesto não cita candidato pelo nome, mas pede voto em quem respeite as instituições e não pretenda concentrar os três Poderes. O presidente da Comissão Arns, Luiz Felipe de Alencastro, negou que o ato seja apoio formal a Lula.
A guerra dos sigilos
A disputa começou no debate da Band, no domingo (18), quando Lula desafiou Flávio a abrir os sigilos dele e da família. Na terça (20), a campanha do presidente mandou ao TSE uma autorização para abrir os dados de Lula e de familiares, condicionada a Flávio fazer o mesmo.
Na quarta, o senador aceitou o desafio com 19 exigências. Entre elas, a abertura dos dados de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula investigado pela Polícia Federal por suspeita de tráfico de influência, além de informações do Instituto Lula e dos gastos com cartão corporativo da Presidência e da primeira-dama, Janja. A campanha de Lula disse aceitar as 19 condições e pediu que Flávio inclua a Alcazar Holdings, empresa ligada ao advogado Willer Tomaz, amigo do senador e investigado pela PF.
Quem é Dirceu hoje
Dirceu foi condenado pelo STF no mensalão em 2012 e teve a pena extinta por indulto em 2016. Ficou 1 ano e 9 meses preso em Curitiba por ordem da Lava Jato e foi solto em maio de 2017. Em outubro de 2024, o ministro Gilmar Mendes anulou as condenações da Lava Jato contra ele, e o ex-ministro recuperou os direitos políticos.
No ato desta quarta, ele disse ao Poder360 que a campanha de Lula ganhou uma "dimensão histórica" com a ida de apoiadores às ruas, principalmente jovens. O segundo turno é no domingo (25).
Análise F5 ao vivo
Um ato anunciado como apartidário, numa das salas mais simbólicas do direito brasileiro, terminou com um dos nomes mais conhecidos do PT dando declaração de campanha na porta. É o tipo de cena que enfraquece o próprio discurso de neutralidade dos organizadores, por mais que a Comissão Arns negue apoio formal a qualquer candidato.
A frase de Dirceu também pesa pelo que insinua. Dizer que alguém pode ir para a cadeia se abrir as próprias contas é tratar como certo um crime que nenhuma denúncia descreveu. A Constituição, no art. 5º, LVII, diz que ninguém é considerado culpado antes de sentença definitiva, e o mesmo artigo protege a intimidade e o sigilo de dados (incisos X e XII). Quem foi condenado e depois teve as condenações anuladas conhece bem o valor dessas garantias.
A guerra dos sigilos virou disputa de condições, e até agora nenhum dado de ninguém foi de fato aberto. O eleitor paulista, maior colégio do país, vai às urnas com promessas de transparência dos dois lados e nenhum documento na mesa.
Fontes: Poder360 (fala de Dirceu e sigilos), Conjur (o ato na Faculdade de Direito), TVT News (manifesto e signatários). Texto escrito pela redação com as próprias palavras, a partir das fontes citadas.





