Multidão queima casa e clínica de cristão acusado de blasfêmia no Paquistão; 35 famílias fogem
Kamran Masih, de 40 anos, foi preso por um vídeo compartilhado na internet. No dia seguinte, a casa e a farmácia dele viraram cinzas numa vila do Punjab, e a comunidade cristã deixou o lugar com medo.

Mais de 35 famílias cristãs deixaram as casas na vila de Gharyal Kalan, perto de Narang Mandi, no distrito de Sheikhupura, província do Punjab, no Paquistão. Elas fugiram depois que uma multidão pôs fogo na casa e na clínica de Kamran Masih, um cristão de 40 anos, pai de três filhos, acusado de blasfêmia.
Masih foi preso pela polícia em 8 de outubro. Ele é acusado por um morador da vila de ter compartilhado nas redes um vídeo considerado ofensivo ao profeta Maomé e à família dele. Na sexta-feira, 9, dezenas de pessoas se juntaram na frente do imóvel, onde ele morava e mantinha uma pequena clínica com farmácia, e atearam fogo nos dois.
O que a polícia fez
A polícia de Narang registrou duas ocorrências. A primeira é contra o próprio Masih, com base nos artigos 295-A e 298-A do Código Penal paquistanês, que tratam de ofensa a sentimentos religiosos e a figuras sagradas do islã. A segunda é contra quem participou do ataque, por incêndio, depredação, tumulto e incitação, com artigos da lei antiterrorismo do país.
O número de presos pelo incêndio varia conforme a fonte. O jornal paquistanês The Friday Times fala em cinco suspeitos detidos. Uma fonte local ouvida pela agência Morning Star News diz que mais de 15 foram presos, que a polícia impediu a multidão de atingir outras casas cristãs e que um grande efetivo foi mandado para proteger os moradores.
O deputado provincial Emmanuel Ather Julius, que representa os cristãos na Assembleia do Punjab, foi até a vila. Outro representante das minorias, Falbous Christopher, pediu calma e punição para os responsáveis pela violência.
A reação de quem defende os cristãos
A organização Human Rights Focus Pakistan condenou o ataque e mandou uma equipe à região para levantar a situação das famílias que saíram de casa.
Nenhuma acusação justifica violência de multidão, incêndio, intimidação ou punição coletiva.
Naveed Walter, presidente da Human Rights Focus Pakistan
A entidade lembra que a acusação contra Masih ainda vai ser investigada e julgada e que acusação não é prova de culpa. Ela cobra do governo proteção para ele, para a família e para a comunidade cristã.
Dois dias antes, a Suprema Corte
O ataque veio dois dias depois de uma decisão que pesou sobre os cristãos do país. Em 7 de outubro, a Suprema Corte do Paquistão manteve a pena de morte de Qaiser Ayub, cristão de Lahore condenado por blasfêmia por textos publicados num blog ligado ao nome dele. O irmão dele, Amoon Ayub, foi absolvido por falta de provas e mandado soltar, depois de mais de dez anos preso. Os advogados de Qaiser dizem que vão pedir a revisão da sentença.
O Paquistão nunca executou ninguém por blasfêmia, mas a simples acusação já levou a linchamentos e a ataques a bairros inteiros. Em 2023, em Jaranwala, no mesmo Punjab, multidões queimaram igrejas e casas de cristãos depois de uma denúncia parecida. O país é o 8º da Lista Mundial da Perseguição 2026, da Missão Portas Abertas.
Análise F5 ao vivo
No Paquistão, a lei de blasfêmia funciona como um gatilho. Basta alguém dizer que um cristão ofendeu o islã para que a punição chegue antes do juiz: casa queimada, comércio destruído, famílias inteiras correndo para longe. Masih ainda nem foi julgado, e a vila em que ele vivia já perdeu dezenas de famílias.
A prisão de parte dos incendiários é um passo, mas a história recente mostra que esses processos costumam terminar sem condenação. Enquanto a acusação valer mais que a prova, nenhum cristão do Punjab dorme tranquilo. A liberdade de crer é um direito de todo ser humano, e quem cala diante disso deixa o mais fraco sozinho.
Para a igreja brasileira, fica o chamado a orar pelas famílias de Gharyal Kalan, por Kamran Masih e por Qaiser Ayub, e a não tratar a perseguição como coisa distante. Ela acontece agora, com nome e endereço.
Fontes: The Friday Times, Open Magazine (comunicado da Human Rights Focus Pakistan), Christian Daily International / Morning Star News, Missão Portas Abertas: Lista Mundial da Perseguição 2026. Texto escrito pela redação com as próprias palavras, a partir das fontes citadas.






