Igreja Ortodoxa da Etiópia diz que 60 cristãos foram mortos em dois ataques em Oromia
Santo Sínodo relata 14 mortos em Merti e 46 em Shirka, na zona de Arsi, em menos de uma semana. Governo regional culpa rebeldes, que negam atacar civis.

Pelo menos 60 cristãos ortodoxos foram mortos em dois ataques na zona de Arsi, no centro da região de Oromia, na Etiópia, em menos de uma semana. O número foi divulgado na segunda-feira (26) pelo Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa Tewahedo Etíope, a maior igreja cristã do país.
Segundo a igreja, mais de 20 pessoas ficaram gravemente feridas e 20 casas foram queimadas por inteiro. Nenhum grupo assumiu os ataques.
Onde e quando
- 20 de outubro: 14 mortos em Gora Silingo, no distrito de Merti.
- 24 de outubro: 46 mortos nos vilarejos de Tereta, Chole e Birbo, no distrito de Shirka.
Os dois distritos ficam na mesma zona de Arsi. Um morador cristão de uma cidade vizinha, que foi a Tereta Chole para os enterros e para levar feridos, contou à agência AP que os sobreviventes foram transportados num caminhão até hospitais da região. Ele pediu para não ser identificado, por medo de represália.
O que pede a igreja
O Santo Sínodo chamou os ataques de "massacres brutais e implacáveis" e disse que eles violam a proteção que a Constituição etíope dá à vida e à liberdade religiosa. A igreja pediu que o governo condene os crimes em público, reforce a proteção dos civis e leve os culpados à Justiça. Também convocou orações pelas vítimas nas igrejas e mosteiros ortodoxos da Etiópia e do exterior.
Para o sínodo, os dois ataques fazem parte de um padrão contínuo e crescente de violência dirigida, expulsão de famílias e destruição de casas de fiéis ortodoxos em Arsi.
Governo culpa rebeldes
Hailu Adugna, porta-voz do governo regional de Oromia, atribuiu os ataques ao Exército de Libertação Oromo (OLA) e disse que os rebeldes tentam provocar conflito étnico e religioso. Ele não apresentou provas, mas prometeu punir os responsáveis e ajudar feridos e desalojados. O OLA não comentou o caso. Em fevereiro, o líder do grupo, Kumsa Diriba, negou à AP que seus combatentes ataquem civis.
O OLA faz parte de uma aliança de sete grupos armados formada em setembro para derrubar o governo do primeiro-ministro Abiy Ahmed. Oromia, a maior região da Etiópia, com cerca de 40 milhões de habitantes, vive conflito armado desde 2018. Organizações de direitos humanos acusam os dois lados, rebeldes e forças do governo, de matar civis.
Não é a primeira vez
Em julho, o Conselho de Direitos Humanos da Etiópia (EHRCO) contou pelo menos 432 civis mortos em ataques dirigidos na zona de East Arsi entre 2021 e 1º de junho deste ano. O jornal The Reporter, de Adis Abeba, lembra que fiéis ortodoxos de Arsi já tinham sido alvo de massacres em junho.
Análise F5 ao vivo
Sessenta mortos em uma semana, e o caso quase não aparece no noticiário brasileiro. É o retrato de uma perseguição que acontece longe das câmeras: em aldeias pequenas, com internet cortada e imprensa limitada.
O jogo de culpa entre governo e rebeldes não pode servir de desculpa para ninguém ser punido. Quem tem o dever de proteger a população de Arsi é o Estado etíope, e a pergunta da igreja é justa: por que os ataques se repetem nos mesmos distritos, mês após mês, sem que ninguém seja preso?
Para a igreja no Brasil, fica o chamado que o próprio sínodo fez ao mundo: orar pelos irmãos da Etiópia e não deixar que esses nomes desapareçam.
Fontes: Associated Press (via WRAL), Al Jazeera, The Reporter (Adis Abeba). Texto escrito pela redação com as próprias palavras, a partir das fontes citadas.






