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Vaticano adia visita dos bispos da Nicarágua ao papa por medo de exílio sem volta

A Santa Sé empurrou para 2027 o encontro dos bispos nicaraguenses com Leão XIV. Neste Finados, padres ainda esperavam licença do regime de Ortega para rezar missa nos cemitérios.

Por Redação F5 ao vivo
Catedral de León, na Nicarágua
Catedral de León, na Nicarágua: 4 dos 10 bispos do país vivem no exílio Foto: Guillaume Baviere (CC BY-SA 2.0)

A Santa Sé adiou para 2027, sem data marcada, a visita dos bispos da Nicarágua ao papa Leão XIV. O encontro estava previsto para outubro, logo depois dos bispos de Honduras e antes dos do Panamá, e não aconteceu. A confirmação do adiamento saiu no sábado, 31 de outubro.

Esse tipo de encontro, chamado de visita ad limina, é uma obrigação periódica: os bispos de cada país vão a Roma contar ao papa como estão as dioceses. A última vez que os bispos nicaraguenses fizeram essa viagem foi em setembro de 2017.

O motivo: quem sai pode não voltar

O presidente da Conferência Episcopal da Nicarágua, Carlos Enrique Herrera, disse à EWTN que o Vaticano adiou por falta de condições apropriadas. Herrera foi recebido em audiência privada por Leão XIV em 12 de outubro, mas ele mesmo vive no exílio desde que foi expulso do país, em novembro de 2024.

Hoje, 4 dos 10 bispos do país estão fora: Herrera (Jinotega), Silvio Báez (auxiliar de Manágua, fora desde 2019), Rolando Álvarez (Matagalpa e Estelí) e Isidoro Mora (Siuna), os dois últimos expulsos em janeiro de 2024. Juntar todos em Roma exigiria que os bispos que ainda estão na Nicarágua saíssem do país.

Um padre que continua no país e pediu para não ser identificado resumiu o medo ao Infobae: se alguém sai, pode ser que não o deixem voltar. A pesquisadora Martha Patricia Molina, que documenta a repressão religiosa desde 2019, disse ao jornal La Prensa que o Vaticano não estava disposto a pagar esse preço.

Finados sob licença

Nesta segunda-feira, 2 de novembro, Dia de Finados, a pergunta nas paróquias era outra: se haveria missa nos cemitérios. Até 29 de outubro, segundo Molina, a Igreja ainda não tinha recebido permissão do governo de Daniel Ortega e Rosario Murillo para celebrar nem nos cemitérios públicos nem nos particulares. Em 2023 e 2024 essas missas foram proibidas.

Em outubro, o regime voltou a liberar algumas procissões depois de quatro anos de proibição, mas com uma condição: elas precisam ser supervisionadas e organizadas junto com a prefeitura e com as estruturas do partido do governo.

Os números da perseguição

  • pelo menos 315 padres e religiosas foram para o exílio, segundo os registros de Molina;
  • 43 imóveis da Igreja foram confiscados pelo regime;
  • dioceses sem bispo, como Matagalpa, Jinotega, Siuna e Estelí, estão impedidas de ordenar novos diáconos e padres;
  • a Nicarágua está em 32º lugar na Lista Mundial da Perseguição 2026, da missão Portas Abertas.

Em 2 de outubro, a Organização dos Estados Americanos aprovou por unanimidade uma resolução que pede ao país para revogar as reformas constitucionais de 2025 e 2026 e devolver as liberdades, inclusive a religiosa.

Análise F5 ao vivo

Análise: quando a própria Santa Sé desiste de reunir os bispos de um país com o papa, a mensagem é clara. Na Nicarágua, sair para rezar com o papa pode virar uma passagem só de ida. É a perseguição chegando ao topo da hierarquia da Igreja, aqui mesmo na América Latina.

A volta das procissões não deve ser lida como abertura. Fé que precisa de autorização e de fiscal do partido para ir à rua não é liberdade de culto. No Brasil, o artigo 5º, inciso VI, da Constituição garante o livre exercício dos cultos sem pedir licença a ninguém, e é bom lembrar que esse direito não é regra na nossa vizinhança.

Para as igrejas brasileiras, católicas e evangélicas, a Nicarágua é um caso para acompanhar de perto e incluir nas orações: padres vigiados, bispos expulsos e famílias que neste Finados podem não ter tido uma missa no túmulo de quem amam.

Fontes: Infobae: Santa Sé adia para 2027 a visita dos bispos nicaraguenses, La Prensa (Nicarágua), Infobae: missas nos cemitérios no 2 de novembro, La Prensa: Igreja espera permissão para missas nos cemitérios, Portas Abertas: Lista Mundial da Perseguição 2026. Texto escrito pela redação com as próprias palavras, a partir das fontes citadas.

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