Democracia mitigada: a confissão de Janones diz muito sobre a eleição
O comandante do Exército do Lula admitiu na TV que o modelo usado para vencer não é democracia plena. A frase merece mais atenção do que recebeu.

Há frases que um político passa a vida tentando não dizer. André Janones disse a dele em rede nacional, na noite de domingo, e com toda a calma. Perguntado no Fantástico se era democrático dar uma ordem e ver milhões de pessoas obedecerem, o deputado da Rede de Minas Gerais respondeu que aquilo era uma "democracia mitigada".
O que ele disse
Janones comanda o canal de WhatsApp Exército do Lula, que passou de 10 milhões de seguidores na campanha. Por ali ele mandava missões: vestir a camisa da seleção e fazer o L num dia marcado, fazer buscas combinadas na internet para mexer no que o Google mostrava. Na entrevista, ele não negou nada disso. Explicou.
Não é a democracia no seu estado pleno
André Janones, deputado federal (Rede-MG), ao Fantástico
Segundo o próprio deputado, o modelo não é sustentável, não é o que ele quer para o país e serve como transição. Transição necessária, nas palavras dele, para vencer uma eleição e para dar governabilidade ao presidente daqui em diante. No mesmo dia, Janones disse que não será ministro e que vai ajudar Lula pela Câmara.
Por que a palavra pesa
Mitigar é diminuir, abrandar, cortar um pedaço. Quem fala em democracia mitigada admite que a democracia ficou menor do que deveria. E não foi um adversário que fez a acusação: foi o homem que comandou a principal máquina digital da campanha vencedora, dias depois da apuração.
A Constituição não conhece democracia pela metade. O artigo 1º diz que o Brasil é um Estado Democrático de Direito e que todo o poder emana do povo. O artigo 14 garante a soberania popular pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos. O artigo 5º, inciso IV, protege a livre manifestação do pensamento. Nenhum desses artigos tem cláusula de exceção para o lado que acha estar salvando o país.
Dois pesos
O canal não passou despercebido pela Justiça Eleitoral. Em outubro, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, manteve o Exército do Lula suspenso até o registro na Justiça Eleitoral e impôs monitoramento das mensagens no segundo turno. Janones, na época, disse que decisão judicial se cumpre e que respeitava a Constituição. Agora, com a eleição ganha, diz que o modelo usado foi uma democracia diminuída.
Durante anos, o país ouviu que milícia digital, disparo em massa e desinformação organizada eram ameaça à democracia. Inquéritos foram abertos, perfis foram derrubados e gente foi punida por isso, quase sempre do mesmo lado. A pergunta que fica é simples: a régua vale para todos ou só para quem perde?
Análise F5 ao vivo
A confissão de Janones não anula a eleição nem prova crime. Quem decide isso são as instituições, com investigação e prova. Mas ela muda a conversa. Quem se apresentou durante quatro anos como guardião da democracia agora admite que, para vencer, aceitou uma versão menor dela e chama isso de transitório.
Todo poder que se diz transitório costuma pedir para ficar. Janones já disse que quer usar a mobilização das redes no novo governo e que o próximo alvo é a aprovação do presidente. Um governo que nasce de uma democracia mitigada e pretende governar com a mesma máquina precisa ser vigiado de perto pelo Congresso, pela imprensa e pelo eleitor.
O F5 ao vivo defende a democracia inteira, sem desconto e sem prazo de validade: a mesma regra para o canal da direita e para o da esquerda, o mesmo rigor do TSE para todos e a liberdade de expressão do artigo 5º valendo para quem concorda e para quem discorda do governo.
Fontes: Gazeta do Povo: Janones diz que estado de democracia mitigada foi necessário para vencer eleição, Revista Oeste: Janones diz que Lula precisou de democracia mitigada para vencer, Jovem Pan (Estadão Conteúdo): Janones nega que será ministro de Lula, Itatiaia: Janones reage à suspensão do Exército do Lula pelo TSE, Poder360: Janones dá ao Exército do Lula meta de 90% de aprovação, Money Times (Reuters): Encorajado por Lula, Janones mira mobilização das redes no futuro governo, Constituição Federal (Planalto). Texto escrito pela redação com as próprias palavras, a partir das fontes citadas.






