Bispo nigeriano diz que governo pode parar matança de cristãos, mas não quer
Wilfred Anagbe, de Makurdi, afirma que faltou vontade política em Yelwata. A Nigéria responde por 7 em cada 10 cristãos mortos pela fé no mundo.

O bispo católico Wilfred Chikpa Anagbe, da Diocese de Makurdi, no centro da Nigéria, voltou a cobrar o governo do país pelos ataques que não param no estado de Benue. Em entrevista nesta sexta-feira (6), relatada pela Gazeta do Povo, ele disse que o problema não é falta de meios: o Estado tem força militar para conter os ataques, mas não tem disposição de usar.
A fala chega num momento em que a Nigéria segue no topo de um ranking que ninguém quer liderar. Pela Lista Mundial da Perseguição 2026, da organização Portas Abertas, o país concentrou 72% dos cristãos mortos por causa da fé no mundo entre outubro de 2024 e setembro de 2025.
O exemplo de Yelwata
Para sustentar a crítica, o bispo voltou ao massacre de Yelwata, vila do Benue onde famílias que já tinham fugido de outros ataques estavam abrigadas na praça do mercado. Na noite de 13 para 14 de junho de 2025, homens armados invadiram o local. Segundo o próprio Anagbe, em relato à fundação Ajuda à Igreja que Sofre (ACN), mais de 250 cristãos foram mortos.
Na entrevista de sexta, ele afirmou que milícias das aldeias avisaram as autoridades sobre o ataque com semanas de antecedência e repetiram o alerta 24 horas antes. Ainda assim, ninguém agiu. O ataque teria durado cerca de quatro horas sem que a segurança do Estado aparecesse.
Em junho, no primeiro aniversário do massacre, o bispo já tinha feito a conta da distância. Yelwata fica a uns 50 quilômetros entre Makurdi e Lafia, duas capitais estaduais.
"Poderiam ter chegado a tempo, mesmo que viessem de bicicleta"
Wilfred Anagbe, bispo de Makurdi, à ACN
Até aquela data, segundo ele, ninguém tinha sido preso pelo crime. Os sobreviventes continuam em campos de deslocados, e o bispo pede que as famílias possam voltar para as terras de origem.
Os números da perseguição
O relatório da Portas Abertas contou 4.849 cristãos mortos por motivo de fé no período analisado, contra 4.476 no levantamento anterior. Só na Nigéria, os assassinatos subiram 12,6% em um ano. No mundo, mais de 388 milhões de cristãos sofreram algum tipo de violência por causa da fé.
- Agressões físicas ou psicológicas: de 54.780 para 67.843 casos
- Estupro ou assédio sexual: de 3.123 para 4.055 casos
- Casamentos forçados com não cristãos: de 821 para 1.147
- Cristãos forçados a fugir ou se esconder dentro do próprio país: 201.427
Ex-combatentes e o papel dos leigos
Anagbe também disse temer que ex-insurgentes reintegrados pelo governo, os chamados combatentes arrependidos, acabem infiltrados nas forças de segurança. Como presidente da comissão dos bispos para os leigos, pediu que católicos levem a fé para a política e criticou quem só se declara religioso em época de campanha. A diocese mantém memoriais com os nomes das vítimas para que nenhuma seja esquecida.
Análise F5 ao vivo
A frase do bispo pesa porque vem de quem enterra os mortos. Quando um ataque é anunciado com semanas de antecedência, dura horas e ninguém é preso um ano depois, a explicação de que o Estado não consegue fica difícil de aceitar. Proteger a vida é a primeira tarefa de qualquer governo, e a Constituição da Nigéria, na seção 14, diz que a segurança e o bem-estar do povo são a finalidade principal do governo.
O silêncio também é um problema fora da África. Cristãos brasileiros acompanham de perto a perseguição na Nigéria, mas o tema quase não aparece no noticiário. Os números da Portas Abertas mostram que não se trata de casos isolados: são milhares de mortes por ano, concentradas num só país.
O pedido de Anagbe é simples: justiça para quem matou e o direito de voltar para casa para quem sobreviveu. Não é muito para quem perdeu tudo.
Fontes: Gazeta do Povo: bispo Wilfred Anagbe cobra ação do governo, ACN (Aid to the Church in Need): bispo pede justiça no aniversário de Yelewata, Gazeta do Povo: Lista Mundial da Perseguição 2026. Texto escrito pela redação com as próprias palavras, a partir das fontes citadas.






